Cidade do interior

/ quarta-feira, 3 de agosto de 2011 /
Hesito ao pensar em sair de casa,
pois meus pés estão tão limpos e a poeira urbana não dá trégua nessa época do ano.
Há alguns que reciclam a água descartável para eufemizar a veemência poeiresca,
e ao meio dia,
o banho não lava somente o corpo, mas também a alma ferida desse povo que sofre sem perder a fé;
que clama por justiça no cerne dessa terra sem lei.
Nessa terra de gigantes,
onde prevalece a lei do mais rico e o preço da vida não é nada exorbitante,
os jovens são vegetais em suas camisetas de "refrigerante" e em suas motos envenenadas,
almejam o tudo, porém acabam no nada.


Um pranto fúnebre rompe bruscamente o silêncio de uma madrugada quente,
é uma mulher que chora ao ver um corpo inerte,
lembrando de uma emoção contida durante nove meses que ao fim veio à tona de uma forma explosiva,
semelhante a de uma bomba atômica:
" Meu filho! meu eterno pequeno..."
21hs12min:
Uma festa numa cidade vizinha.
00hs20min:
Um acidente automobilistico.
00hs57min:
Uma morte e duas internações.


Finalmente, decido sair de casa para visitar um amigo de cuca legal que reside na outra extremidade da cidade.
Durante meia-hora de caminhada,
vejo tudo que a cidade pode me proporcionar ver durante o dia:
letras e letreiros,
pessoas e multidões,
comercios e comerciantes,
jovens, adultos e idosos fazendo alvoroço e varando o dia a discutir em bares, comercios e esquinas
os mais variados  temas (política, religião, futebol, vida alheia, etc.)
apesar de não serem instruídos, ostentam uma pretenção de exímios intelectuais
e isso os remetem a um egocentrismo barato e repugnante.
Sinto a brisa refrescar o meu corpo transpassado de suor e lembro de uma bela canção e essa canção me faz pensar em Deus.
Por um instante fico a me crucificar por meus tantos erros,
no entanto,
é justamente nesse momento que o sol aquece com mais insistência o meu gélido coração
e uma sensação boa toma conta de mim, como se Deus me dissesse alguma coisa.
Alguém me cumprimenta ao longe numa bicicleta verde-cana,
esforço-me para reconhece-lo, porém debalde.
Sem me dar por conta,
chego ao meu provisório destino e sou recebido com um caloroso abraço fraterno.


   14/07/2008
(Charles Brow)

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