O espelho me diz que o meu rosto está mudado,
porém minha vida é como um quadro que exibe no presente a mesma imagem do passado.
Minhas pernas ainda estão fortes,
no entanto, estou sempre correndo numa esteira que me passa a falsa sensação de movimentação...
perniciosa ilusão.
O espelho reflete os meus cabelos já bastante brancos, mas, pra ser franco, falando nada mais que a verdade,
nenhum deles foi tingido pela maturidade...
Sinceridade.
Meus amigos nem lembram mais que eu existo,
pudera, afinal, para nenhum deles sequer eu ligo...
Egoísmo.
E essa é a sina minha:
Uma águia que teme as alturas e vive como galinha.
Me sinto um santuário imerso na areia, uma lanterna sob o sol acesa.
(Charles Brow, o Garimpeiro das Circunstâncias, 20/07/20)
Açoite
Da janela ao meio-dia,
sob o azul de sol a pino,
vejo a brisa virar ventania
na folhagem de uma mangueira
a se dobrar feito cachoeira
que segue caudalosa
ao bel prazer do caminho que há tempos imergiu...
O vento impiedoso bate forte na mangueira
assim como outrora o ingrato açoite
sobre as costas escuras e plangentes...
O vento,
assim como o tempo,
tem seus ares de efemeridade...
Mas o açoite, ahhhh... Esse ainda bate,
sobre as mesmas costas ele ainda arde...
O açoite chega até mesmo onde o vento não bate,
metamorfoseando entre várias faces,
é bala, preconceito, favela, grades...
O tempo segue a sua sina de sumir na rotina
e o vento morre ali na esquina,
mas o açoite, esse teima em arder
sobre as mesmas costas ainda.
(Charles Brow, O Garimpeiro das Circunstâncias, 18/06/20)
SAUDADES
As vezes sinto saudades de casa...
... De antes dela desmoronar sobre nós
e restarem apenas lembranças entre os escombros...
Com um excruciante aperto no peito
sinto como um fardo
a falta dos fins de tarde, do futebol, das amizades...
Sei que mesmo que eu desejasse profundamente
o tempo jamais seria como uma moda antiga
que desaparece e depois, sem mais nem menos,
retorna vestindo nostálgicos e saudosistas...
As vezes sinto falta de não depender de ninguém
e de não ter ninguém dependendo de mim, ou me esperando em algum cais ao final da guerra,
e peregrinar como um cavalo selvagem, indomável,
que sobe as serras e em meio as matas e cachoeiras
persegue ofegante o horizonte distante, porém mais
acessível do que se pode imaginar...
As vezes sinto saudades do lar
e o reconstruo no meu coração da forma mais perfeita
que eu posso o conceber, corrigindo máculas e desvios,
para levá-lo comigo aonde quer que eu vá,
não como um peso que me freia os passos,
mas como um dínamo que converte e redireciona
minhas forças,
me proporcionando energia continua...
(Garimpeiro das circunstâncias; 27/12/19)



