lanterna diurna

/ segunda-feira, 20 de julho de 2020 /
O espelho me diz que o meu rosto está mudado,
porém minha vida é como um quadro que exibe no presente a mesma imagem do passado.

Minhas pernas ainda estão fortes,
no entanto, estou sempre correndo numa esteira que me passa a falsa sensação de movimentação...
perniciosa ilusão.

O espelho reflete os meus cabelos já bastante brancos, mas, pra ser franco, falando nada mais que a verdade,
nenhum deles foi tingido pela maturidade...
Sinceridade.

Meus amigos nem lembram mais que eu existo,
pudera, afinal, para nenhum deles sequer eu ligo...
Egoísmo.

E essa é a sina minha:
Uma águia que teme as alturas e vive como galinha.
Me sinto um santuário imerso na areia, uma lanterna sob o sol acesa.

(Charles Brow, o Garimpeiro das Circunstâncias, 20/07/20)

Açoite

/ quinta-feira, 18 de junho de 2020 /



Da janela ao meio-dia,
sob o azul de sol a pino,
vejo a brisa virar ventania
 na folhagem de uma mangueira
a se dobrar feito cachoeira
que segue caudalosa
ao bel prazer do caminho que há tempos imergiu...

O vento impiedoso bate forte na mangueira
assim como outrora o ingrato açoite
sobre as costas escuras e plangentes...
        
 O vento,
  assim como o tempo,
  tem seus ares de efemeridade...
  Mas o açoite, ahhhh... Esse ainda bate,
  sobre as mesmas costas ele ainda arde...
                 
 O açoite chega até mesmo onde o vento não bate,
 metamorfoseando entre várias faces,
 é bala, preconceito, favela, grades...

O tempo segue a sua sina de sumir na rotina
 e o vento morre ali na esquina,
mas o açoite, esse teima em arder
sobre as mesmas costas ainda.
                                                                 
  (Charles Brow, O Garimpeiro das Circunstâncias, 18/06/20)
                       
/ sexta-feira, 27 de dezembro de 2019 /

SAUDADES


As vezes sinto saudades de casa...

... De antes dela desmoronar sobre nós
e restarem apenas lembranças entre os escombros...

Com um excruciante aperto no peito
sinto como um fardo
a falta   dos fins de tarde, do futebol, das amizades...

Sei que mesmo que eu desejasse profundamente
o tempo jamais seria como uma moda antiga
que desaparece e depois, sem mais nem menos,
retorna vestindo nostálgicos e saudosistas...

As vezes sinto falta de não depender de ninguém
e de não ter ninguém dependendo de mim, ou me esperando em algum cais ao final da guerra,
e peregrinar como um cavalo selvagem, indomável,
que sobe as serras e em meio as matas e cachoeiras
persegue ofegante o horizonte distante, porém mais
acessível do que se pode imaginar...

As vezes sinto saudades do lar
e o reconstruo no meu coração da forma mais perfeita
que eu posso o conceber, corrigindo máculas e desvios,
para levá-lo comigo aonde quer que eu vá,
não como um peso que me freia os  passos,
mas como um dínamo que converte e redireciona
minhas forças,
me proporcionando energia continua...


     (Garimpeiro das circunstâncias; 27/12/19)



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