Manhã de chuva

/ sexta-feira, 20 de julho de 2012 /

Na noite anterior deitei por volta das 01h20min da “madruga” a fim de dormir até mais tarde no domingo, pois havia “hibernado” muito pouco durante os dias antecedentes devido à correria da primeira semana de trabalho no Departamento de Vigilância sanitária (DVS) e também, à minha falta de escrúpulos referente à descansar por, no mínimo, oito horas por noite.
Mas o chato da vida é que na maioria das vezes tudo acontece disforme ao que planejamos, é por isso que se faz necessário ter sempre um plano B, uma carta importante oculta na manga do paletó, ser perito na primal arte de sair pela tangente, pressionar o botão ejetar e dar a volta por cima, para do alto, voltando ao chão aos poucos amparado por um pára-quedas, olhar a real dimensão da situação. Creia, não se trata aqui de ser covarde e sim de usar a força do adversário contra o mesmo. Ter a exata noção de seu limite é uma arte dominada por poucos, te possibilita ver a situação como alguém que está pelo lado de fora da dita cuja. Não me delongarei em exemplos para ilustrar a idéia que estou a explanar, para falar verdade, não darei um sequer, pelo menos não hoje.
O fato indigesto, que inclusive constituiu-se em caroço pro meu angu, foi o seguinte: Eu acordei às 7h30min, olhei pro relógio encabulado, tiririca “mermo”, pois como disse há pouco, eu queria dormir até mais tarde. Abramos um parêntese aqui: Não é que acabo de me lembra do Sr. Omar do seriado “Todo Mundo Odeia o Cris”! Se ele estivesse aqui, ou viesse a ler esse texto, diria do alto de seu montante cognitivo/empírico quase que instintivamente: “TRÁGICO!” E eu não saberia dizer se por compaixão ou ironia.
Mas quem disse que eu me entreguei? Pelo contrário, Respirei fundo e deitei outra vez no colchãozinho de solteiro (colchãozinho de solteiro é redundante, não? Mas...) jazido estrategicamente na sala de estar (Onde geralmente fica a televisão) da casa em que estou dormindo ultimamente (é que estou de “guarda-casa” enquanto um amigo meu volta de viagem com sua família), não demorou muito para que eu voltasse a babar o colchão e roncar sobre o mesmo, Ahhhhh... Coisa boa é dormir!
Se pelo desfecho do parágrafo supra-escrito criou-se em sua linda cabecinha a sensação de conforto expressa na frase: “E dormiu feliz para sempre!” (Dormiu feliz para sempre? “Até a hora em que acordou!” Assim ficou melhor.) Saiba que não foi bem assim.
Trimmmmmmmmmmmmm...Dingue,dongue, dingue, Dongue.... Assim dobraram os sinos e despertadores, campanhinhas e afins residentes em meu crânio. Acordei atordoado, assim como Roberto Carlos numa de suas canções famosas. Mas em vez de eu dizer alô como o rei, disse: “Meu Deus, quem implantou a orquestra sinfônica do Caus em minha cuca?”. Num esforço inconsciente busquei o celular em meio aos lençóis de pano delgado ao longo do colchão com a intenção de ver a hora. Ao encontrá-lo, decepcionado constatei que ainda eram 09h30min.
Eram 09h30min de um domingo... Não tinha celebração na igreja, pois as crianças da catequese estavam todas em férias... Eu estava acordado sem motivos para estar... Fumaças saiam dos meus ouvidos e narinas... Eu só queria dormir até o meio-dia, uma prévia analise do contexto daria a qualquer um, qualquer um mesmo, respaldo para defender-me na afirmação: “Não era pedir demais!”.
Em meio à ebulição de meus líquidos cerebrais e o ranger dos meus dentes (Dramático!), ouvi um barulhinho familiar vindo de fora da casa: “Será, Jesus?...” Levantei estilo “no pulo do gato” e corri para abrir a janela que por meio do vão com grades no muro dava acesso à uma visão panorâmica da praça onde outrora me consumi em suor  jogando vôlei  nas tardes de férias do colégio. Quando abri a Janela senti uma brisa fria me arrepiar, Eu estava certo.
“Chove lá fora e aqui faz tanto frio, me dá vontade de saber aonde (caro leitor, este aonde empregado nesse contexto renderia um livro ao Prof. Pasquale. Se caso ele leia esse texto já deixo a seguinte recomendação: “Se resolva com o Lobão!”) está você? Me telefona![...]” Quando vi o céu cinzento e choroso, me lembrei dessa música antiga, inclusive muito badalada nos áureos anos 80 aqui no Brasil, nunca fui fã do Lobão, mas ouvi muito essa música e ri vendo o clipe, como eles se vestiram estranhamente! Pense nuns caras demodés (feios ao extremo), talvez na época fossem a maior “wave” aqueles cortes de cabelo e aquelas peças de roupa esdrúxulas, mas agora...
A chuva caiu sem pudor, apática à minha solidão e fome, em pingos fortes e velozes como flechas tribais atiradas sobre dizimadores, a ponto de me privar da visão exata da pequena praça onde Dantes joguei na posição de líbero. Apesar de ilhado do mundo (entre aspas “”), fiquei feliz e imóvel a escutar a música no telhado, música que remontava momentos felizes da minha infância imperativa, aquela música me convidou faceiramente a um mergulho num passado remoto. E quando dei por mim, não estava mais na janela daquela casa, e sim enfiado até a altura do estômago, de mãos dadas a colegas, brincando de vencer a correnteza de lama e lixo numa vala (que se ligava a outras, formando assim um longo canal que ia para além da rua), aberta pelas forças das águas de tantas enxurradas, localizada na famigerada Rua Guanabara, que na época começava em frente à igreja católica matriz, em meio a uma das chuvas de dezembro de 1998. Em nossas mentes de crianças não havia limites ou possibilidades de doenças graves, a palavra de ordem era inovar, vencer as adversidades, sendo elas quais forem, se tornar um dos grupos de heróis que povoavam nosso imaginário. E se já era assim no período letivo, imaginem nas férias, que era o caso na ocasião.
Hora ou outra alguém vociferava de uma porta ou janela dizendo para sairmos das erosões ou morreríamos com pira, ou coisa afim. Mas nós tínhamos a meta de ir até o fim, sendo lá onde fosse, mas eles eram muito adultos para entender nossos motivos, já haviam se acostumado a ver um momento por vez. Nós, apesar de frágeis infantes, víamos muito além.  Cônscios dessa verdade, julgávamos uma insensatez tamanha dar ouvido a eles, se quisessem nos tirar de lá que chamassem a polícia, nossas mães e pais... Prosseguíamos, sem saber o que nos esperava a frente.
Enquanto continuávamos, um de nós soltou suas mãos das nossas julgando-se forte o bastante para brincar a margem da vala, quebrando assim a “corrente”, o resultado fui imediato, as atrozes águas sujas o arrastaram para trás e, sem apoio, ele começou a se afogar ingerindo muita lama. Diante do ocorrido, a decisão de voltar foi unânime, não por medo de sermos arrastados também, confiávamos na força da “corrente”, mas para resgatar nosso amigo. Saímos do canal e corremos em seu encalço à margem do rio de lixo, não sabíamos o que fazer, até por que ele já se encontra em uma área muito profunda do canal, mas tínhamos que fazer alguma coisa, ou não seríamos dignos de nossos “morfadores”. Dentre nós havia um que se destacava em estatura e responsabilidade (Responsabilidade? Sim, responsabilidade!), inclusive nossos pais só liberavam nossas presenças nos festejos da cidade mediante a um pedido seu. Weberte Jr. Era Sua identidade de cidadão comum, mas quando assumia sua missão de herói...Todo herói possui um alter-ego (não sei se é assim que se escreve), até por uma questão de humildade, muito prezada pelos verdadeiros heróis, seu nome mudava para... tcham,tcham,tcham,tcham... Jr. (É só isso, esperava o quê? Super-menino?), Let’s  Go Jr.! Só para enfatizar, geralmente ele usava óculos, mas quando íamos para missão ele nunca levava seus característicos fundos de garrafa (nem era tão fundo de garrafa assim!). Isso não te faz lembrar-se de alguém muito conhecido?
Como sempre o Jr. Se sobressaiu em meio ao nosso desespero, mantendo sua capacidade de pensar a melhor maneira de resolver as situações, um líder nato, Ele sempre foi centrado e ainda hoje vive a ajudar pessoas (não, não é bombeiro... Nem policial norte-americano... Mas nunca deixou de ser herói.). E num lampejo divino, teve a brilhante idéia de se adiantar com relação ao nosso outro amigo e esperá-lo à frente, ou melhor, atrás, pois nossa intenção sempre foi ir contra a corrente de lama e lixo, sabíamos que se sempre fossemos contra a corrente não seriamos confundidos com o lixo que ia ao bel prazer da mesma.
Como sempre nosso “Range” vermelho nos mostrou como solucionar a parada. Enquanto ele  segurou pela mão aquele que havia sido arrastado pelas águas sujas e revoltosas, nós o ajudamos a puxá-lo. E com muito esforço, num relativo espaço temporal, conseguimos realizar um bem sucedido resgate, sem que houvesse graves consequências.

Após o regresso desse passeio pelas vielas do meu passado, me pus a dar passos pela casa em direção ao quintal.  Da varanda senti o vento frio trazer com sigo gotículas de chuva que me adentraram os poros e refrigeraram minha alma, me senti naquele momento alguém que volta a ser criança, eu sei que isso pode parecer besteira, é impossível, pelo menos em nível concreto, alguém voltar a ser criança, no entanto naquele momento o meu espírito tinha 10 anos outra vez. E trotava como um corcel selvagem em direção a sua origem: Deus.
Deus sempre esteve comigo/contigo, a chuva me dizia isso e mais... Dizia que a misericórdia do Pai era incondicional. Nos bons e maus momentos, sobre boas e más pessoas, a chuva não deixou de cair, não deixou de lavar, não deixou de me convidar a sair do quarto e adentrar suas águas, sentir seu vento, e sem remorso algum por ter deixado a comodidade e o calor do lar para abandonar-se sob os pingos a cair, encontrar outros que fizeram a mesma opção.




                                                                                             (Charles Brow, o Garimpeiro das Circunstâncias)
                                                                                                                              20/07/2012


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