Cinco Centavos

/ terça-feira, 11 de outubro de 2011 /
Hoje de manhã, enquanto ganhava a rua cedro(rua da minha casa) em direção a igreja católica matriz, vi à margem direita da rua uma moeda de cinco centavos. Naturalmente, prossegui indiferente. Afinal, quem é cinco centavos no jogo do bicho?
Mas antes que eu me afastasse demais, minha consciência alarmou estridente dizendo-me que a menor semente pode se tornar a mais frondosa das árvores desde de que as condições venham à favorecê-la e que a menor oportunidade pode determinar uma vida de sucesso, ou dependendo da escolha, uma vida de frustração.
Disse-me também,que por um medo inconfessado, que não raro gera perguntas do tipo: "O que será que os outros vão pensar de mim?" " O que os outros vão pensar de mim se eu por a mão no chão para  pegar míseros cinco centavos?" , nós, seres humanos, vejam só, deixamos de assumir nossa humanidade.Pois preferimos esconder a necessidade que temos daquela pessoa que talvez não esteja na top five dos demais, mas que para nós é um anjo enviado pelo próprio Deus para dar cor aos nossos dias cinzentos e fazer forte o que em nós ainda é muito frágil.
Continuou,dizendo que por esse medo demasiado idiota é que na maioria das vezes deixamos de "rasgar" o peito e mostrar o coração pra essa pessoa especial, escondendo assim o sentimento no porão do nosso cerne, ignorando o fato de que ele jamais morrerá e mais cedo ou mais tarde ele pode emergir na forma de uma incontrolável frustração, que não raro gera perguntas do tipo: " E se eu tivesse dito...?" ou afirmações do tipo: " Eu fui um idiota.".
Em dado momento a intercalei com uma pergunta: " E se tal pessoa não for "A Pessoa" e a vontade de estar sempre perto não passe de um ledo engano?" ao que me respondeu sem titubear: "Declare-se mesmo assim! por acaso não sabes que uma desistência pode influênciar uma vida de desistências? Quando "A Pessoa" cruzar o seu caminho você pode já ter se tornado um poço de desistências o que também determinará o momento, que será de desistência. Jamais ame uma pessoa imaginando demais que ela pode não ser a pessoa certa, porque isso não é amor e te impossibilitará de viver a intensidade dos momentos lado a lado. Ame simplismente pra fazer feliz,viva o sentimento por inteiro como se jamais fosse acabar.E se não durar muito tempo, lembresse do Soneto de fidelidade de Vinicius de Morais: " Que não seja imortal posto que é chama, mas que seja eterno enquanto dure."
"Mas e se eu for magoado?" continuei a perguntar.
"Começo citando um trecho da crônica Amar Demais do livro A arte de Reviver de Manoel Carlos (Maneco): pobres amantes somos nós, homens e mulheres, quando mordidos pela desconfiança. não queremos amar demais porque temos medo de sofrer. Temos medo de sofrer porque somos inseguros.
Lembre-se que a dor faz parte do amadurecimento de cada pessoa e poderá ser superada pela certeza de que você deu o máximo de si no amor que durou o tempo necessário para tornar-se eterno e precisa continuar existindo mesmo que em outro nível.
Essa critério é casável com tantas outras situações em que vocês deixam de fazer determinadas  coisas por julga-las  banais e infrutiferas no momento.Assim como aquela moeda de cinco centavos que sozinha apresenta um valor monetário insignificante a ponto de  proporcionar a uma pessoa apenas uma mísera bala de menta, mas se somada a outras tantas pode ter valor altissímo e dar a mesma pessoa poder aqusitivo para possuir a tão sonhada casa própria, as pequenas oportunidades de cada dia se agarradas com mãos e braços, pés e pernas, podem inchar como bolo fermentado e lhes encher o paladar de ótimos sabores."

Minutos depois, meus olhos negros por detrás dos óculos encaravam a moeda erguida do chão por minha mão direita e que agora repousava feliz na palma aberta da minha mão esquerda. Após um leve sorriso, ocultei a dita cuja em meu bolso traseiro esquerdo e segui o meu efêmero destino.

Curionópolis 11/10/2011
(Charles Brow)

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